edição 001

2009

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edição 001 : 15 de outubro, 2009
O CAMINHO QUE ESCOLHE

EDITORIAL

Isto não é uma revista. Isto não é uma imagem, uma fotografia na parede, um quadro no seu quarto, um muro na sua rua, pedaço de laje, janela pro espaço, sargaço, palhaço, aço. Vamos juntar os amigos para sair e beber. Vamos pro circo, montar cavalo, alimentar  leões, saltar elefante, sei lá, isto é um zine de poesia, tá?

Alguns escritores que conheci, com suas nobres tentativas em me ajudar, enfiaram a bala errada e acabaram por inibir o superfaturamento das palavras. Regras; rigor; o que é e o que não é; estilo; voz; de que adianta todas essas cagadas no meio da tempestade? Passei meses sem conseguir rabiscar uma frase sequer. Portanto a ideia aqui neste PARALELEPÍPEDOS é explorar o que há de terreno baldio nos seus cadernos. Não existe equipe fixa, é tudo colaboração ou são coisas que vou pescando (às vezes sem avisar) por aí no meio do atlântico. Não defini a periodicidade do zine, mas assassina o feed e fica tranquilo. Leia à vontade. Por favor passe pro seus amigos, vamos beber, e caso você também escreva e se entorte em poesia, manda pra cá. Agora dá licença que eu vou ali terminar de ler o Moby Dick.

Gabriel Pardal

http://tinyurl.com/gabrielpardal

falecomgabpardal@gmail.com

## PARA LER OUVINDO

## MADRUGADA
Mariana Dias
http://marianadias.wordpress.com/

Não consigo mais chorar.

Após a decifração do enigma: devorei a realidade do chão duro. Como ele é. Como ele sempre foi. O mesmo. Ilusão, infância, ingênuo, santa raiva… Santa malícia que transporta. A lucidez é o caminho. Estar aqui é estar aqui. E escrevo que nem algo. E escrevo que nem alguém que me escreve ou alguém que me escreveu e apagou-se. Estrelas quando caem se apagam. Estrelas também caem. Estrelas também mentem, mentem e fingem como Pessoa. Inventei uma pessoa: poeta, bêbada em Paris… Uma personagem. Triste e cômica personagem feliniana – a vivenciei, a compreendi. Tão sonhadora e ingênua que dói a barriga de tanto rir. Por isso rogo por sua salvação e pela minha também.  A gente escolhe a metade do caminho. A metade do caminho é o caminho que escolhe.

## RABISCANDO
Filipe Bezerra
http://bomcamarada.wordpress.com/

Aquela turma que só queria saber de farrear e até pouco tempo não sabia pra onde ia, e nem sabia se queria realmente e honestamente chegar a algum lugar.

São quase sempre tão poucos aqueles que conseguem alcançar o seu espaço num futuro imaginado, tendo o sonho realizado, e é realmente frustrante admitir que isso talvez seja verdade.

É como a história daquele garoto que certa vez ganhou do pai uma caixa cheia de tempo e ele brincou com o tempo e como todo brinquedo que tinha aquele também se perdeu.

Se eu fosse um profeta eu diria que o futuro é garantido, mas o importante é fazer de cada coisa a melhor coisa considerando que essa coisa seja o que você quer.

Amor não se compra, mas amor também não paga nem sequer uma possível solução aos meus questionamentos, bem como seus desdobramentos feitos com anseio e com respeito em cada oração.

## SUJANDO AS MÃOS

Para Roland Tiangco, escrever também é ler; assistir também é filmar; e para tudo isso devemos sujar as mãos.

## NÃO ESTOU

Para Liu Bolin o que é bom não é fácil de enxergar.

## MÁGICA
Jorge Luis Borges

Creio que nossa idéia de as palavras serem uma simples álgebra de símbolos vem dos dicionários. Não quero ser ingrato com os dicionários – minha leitura favorita seria o dr. Johnson, o dr. Skeat e aquele autor conjunto, o Shorter Oxford. Acho, porém, que o fato de termos longos catálogos de palavras e explicações nos faz pensar que as explicações esgotam as palavras, e que qualquer uma dessas moedas, dessas palavras, pode ser trocada por outra. Mas acho que sabemos – e o poeta há de sentir – que toda palavra subsiste por si mesma, que cada palavra é única. E essa sensação nos vem quando um escritor emprega uma palavra pouco conhecida. Por exemplo, achamos a palavra “sedulous” (afinco) um tanto afetada, embora interessante. Porém quando Stevenson – de novo o saúdo – escreveu “played the sedulous ape to Hazlitt” [macaqueou Hazlitt com afinco], de súbito a palavra ganha vida. Assim, essa teoria (não é minha, claro – tenho certeza de que pode ser encontrada em outros autores), essa idéia de as palavras começarem como mágica e serem reconduzidas à mágica pela poesia, é, a meu ver, verdadeira.

## SOU LIVRO
Gabriel Camões
http://desertocriativo.wordpress.com/

Pensar
É um vôo livre
Ler
É um vôo livro

Deus livre o homem
De viver sem livro
Deus guarde os livros
Nas estantes

Para eu ser livre
Para eu ser vivo
Só por uma página
Só por um instante

Uma linha de palavras
Em cadeia
É o passaporte para ser livre
Para o ser livre

Basta ser livro
Basta um livro
Uma página
Uma palavra

O livro livra o homem
Da imensidão silenciosa
Da escuridão ignorante
De uma página em branco

Livres são os homens que pensam
Livros são os homens que pensam

Sou livre
Sou livro


## ESPAÇO DOS NOSSOS ANUNCIANTES
propaganda


## A ARTE E(´) A NECESSIDADE
José Roberto Teixeira Coelho, na Bravo! Novembro 2002.

Que arte serve para alguma coisa, que a arte tem utilidade. É isso que dizemos, de modo tático, aos políticos e empresários. A arte não serve para nada, a arte é inútil. Arte é puro dispêndio. Que bom. Os inimigos da “arte contemporânea” (no sentido de arte obscura, sem sentido) pensam atingi-la chamando-a de masturbação, essa também, do ponto de vista religioso, um desperdício por despejar no vazio a semente reprodutiva (o pecado de Onã). Na verdade, é um cumprimento à arte. Numa sociedade submetida à ideia da produtividade prometéica a todo custo (na verdade, ao menor custo ou ao custo dos outros), a arte como inutilidade é, para não dizer resistência, o que seria forte demais, pelo menos uma alternativa ao “sistema”. É uma ironia e um paradoxo, claro, que o sistema gaste 5, 10 milhões de dólares numa bienal, com dinheiro das marcas mais divulgadas no mundo, para mostrar essa arte inútil. Mas, assim é. E é isso que permite a Richard Serra negar com veemência qualquer possibilidade de se considerar Frank Gehry, o arquiteto do Guggenheim-Bilbao, e de quem no entanto é amigo, o maior artista do século 20, como querem alguns. Por mais que a arquitetura contenha um elemento de arte (e como reproduzo aqui este juízo de valor, de algum modo o endosso – o que me valerá mais algumas inimizades entre os arquitetos…), sobre ela pesa uma enorme carga funcionalista e utilitária que não lhe permite considerar-se arte – não, em todo caso, do modo como se considera a “arte contemporânea”. Reconhecer Frank Gehry como artista é contestar, a rigor, a ideia de autonomia da arte, tão duramente conquistada a partir das prisões de várias ditaduras e totalitarismos – a da Inquisição, a macarthista, a caribenha, a petainista, a pinochetista, a brasileira, a nazista, a fascista, a franquista, a salazarista, a soviética, a maoísta, a islâmica-fundamentalista e aquelas ainda em germinação (que as há, e como!). Os artistas não estão prontos a entregar a rapadura tão fácil assim, mesmo que a isca seja sedutora, como o é Gehry.

## EU DISSE, NÃO DISSE?

## BAGAGEM
Renato Luz
http://tragicoaforca.wordpress.com/

objeto1
um único par de tênis de couro
que comprei para ir a sua peça.
não fui ver você, mas foi quando vi.

descrição1
extensão do corpo suja e rasteira.

quadro1
velho coloca jornal no sapato
no ônibus. chuva.

objeto2
único par de sandálias de couro e o deserto à frente.

memória1
postes de luz ficam pra trás do passado (escuro)

objeto3
sapato novo que se tem orgulho
de exibir numa festa. pisado.

descrição3
você, peça de vestuário desconfortável cobre o pensamento.

memória física1
me instiga,
não me entende,
me desafia,
me dá calo.

quadro2
velho cobre a cabeça com o jornal e adormece frio.
arcondicionado no inverno.

pensamento1
1.1 quando falta a coerência melhor dormir.

1.2 anoto seu nome na lista.

1.3 (comprar cuecas novas na Itália).

1.4 amanhã arrumo a mala.


## ESQUADRO

## CIRQUE DU SOLEIL BAIANO

## UM FILME QUE VEM AÍ

## NOTÍCIA QUE  VAI MUDAR SEU MUNDO
Thérèse Van Belle, de 58 anos, conquistou o título de Miss Sem-Teto da Bélgica, no sábado, em concurso realizado na capital Bruxelas.

##NOTÍCIA QUE NÃO VAI MUDAR SEU MUNDO
O ator Nicolas Cage está devendo cerca de R$ 11 milhões em impostos ao fisco dos EUA, que deixou de pagar em 2007. Por conta da dívida, o governo americano decretou a penhora de suas propriedades.

## RESPONDEUS
Betão
http://foradoalvo.blogspot.com/

pra escapar desse medo, não desse modo
sigo o riso não a morte
destravando maxilares e lares
borrando páginas escritas mal apagadas
aquela borracha vagabunda
manchas, manchas e manchas
página em branco, cabeça borrada
papel escrito, borracha na cabeça
borra, borra, berra!!


## POESIA (NÃO REVISADA)
Gabriel Pardal
http://tinyurl.com/gabrielpardal

Puta merda escrevi um poema
é de amor
um incrível
magnífico
insuperável
incondicional
amor
amarelo sinfonia rocambole

Puta merda publicarei um livro
estará à venda nas melhores livrarias
participarei das antologias
dos debates na PUC
das feiras e festas
leitura obrigatória nas escolas etc

Puta merda mamãe ficará orgulhosa
vai ver seu filhão no programa do jô
por ter escrito um único poema de amor
um incrívelmagníficoinsuperávelincondicional
amor de uma pessoa por ela mesma
seja ela quem for


## MARTIN AMIS RESPONDE
De uma entrevista feita pelo Michel Laub com o escritor britânico Martin Amis.

Você vê o que aconteceu com a poesia na última geração. É como se o mundo se acelerasse em tal dimensão que não podemos diminuir o ritmo o suficiente para ler poesia. A poesia perdeu seu poder na imaginação porque não só desacelera o tempo, como de fato para o relógio. Um poema lírico pede que você examine um determinado momento. E não se gosta mais dessa introspecção. Gostamos que as coisas se movam numa velocidade mais reconhecível. O mesmo se passa com a ficção. Não queremos, ou eles não querem, um tipo de romance de dicção meditativa; preferem um tipo que mais facilmente lembre a velocidade da vida.

## VALENDO UM MILHÃO DE PALAVRAS
Fotos de Charlie Engman

## UM CLIPE
Sebastien Tellier – Divine

## TRISTEZINHA NO FINAL DA TARDE
Luar Grinberg

Sim, eu sei que não vens hoje,
mas continuo esperando.
A janela aberta, o bolo assando, as flores no jarro…
Eu sei, pode chover mais tarde,
mesmo assim regarei as plantas
e deixarei as roupas no varal.
Tanto faz o tempo lá fora,
enquanto não entrares com as botas enlameadas
e derramares as tuas palavras no chão
será sempre inverno
nos meus olhos
de algodão.

F I M (foi bom pra você?)

O PARALELEPÍPEDOS é um zine colaborativo de poesia e variedades criado por Gabriel Pardal e os anões da NOMEDACOUSA brinquedos&bombas. Caso se interesse em colaborar com nossas próximas edições, então não perca tempo, mande seu poema/texto/classificados para falecomgabpardal arroba gmail.com

Agora vou ali apostar no bicho.

4 Responses to “edição 001”


  1. [...] 16/10/2009 só clicar entre as minhas pernas [...]

  2. luzrenato Says:

    vamo ficar rico com isso aqui ?
    bora logo!!!!

  3. Bezerra Says:

    Vontade que dure e alegria que sobre que isso aqui é poesia!

  4. mariana Says:

    to por aqui, to por sempre, to pro que der. to pra ler. to e topo.


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